Os principais trechos aparecem em negrito. Este material reflete nossa visão no momento de sua elaboração, em 26/10/2026. O mercado é dinâmico e pode mudar rapidamente diante de novos dados, notícias e eventos; caso haja mudanças relevantes em nossa visão, comunicaremos de forma clara.
Nas últimas cartas, vínhamos adotando uma postura bastante cautelosa. Mesmo com o entusiasmo crescente em relação ao Brasil depois do primeiro turno, tanto entre investidores institucionais quanto entre pessoas físicas, entendíamos que ainda existia um risco relevante sendo subestimado.
Nossa preocupação tinha duas origens. A primeira vinha de fora: os juros de longo prazo nas principais economias permaneciam muito elevados, as contas públicas dos grandes países continuavam pressionadas e enxergávamos pouco espaço para uma melhora rápida desse cenário. Isso significava que o Brasil não teria muito espaço para errar. Quando o investidor consegue encontrar retornos elevados em dólar, ele se torna menos tolerante com países emergentes que apresentam dúvidas fiscais, aumento da dívida ou deterioração institucional.
A segunda preocupação era a própria eleição. Depois do primeiro turno, o mercado passou a incorporar com força uma vitória da oposição: a bolsa subiu, o dólar caiu e os juros recuaram bastante. O problema é que a relação entre o que ainda poderia subir e o que poderia cair tinha ficado muito ruim. Caso a expectativa se confirmasse, ainda existia espaço para valorização; mas, caso o resultado fosse na direção contrária, a destruição de preço dos ativos poderia ser muito maior.
Foi exatamente por isso que, mesmo diante do entusiasmo do mercado, preferimos manter uma postura cautelosa e esperar o segundo turno antes de aumentar significativamente o risco das carteiras. Não queríamos transformar o patrimônio dos clientes em uma aposta eleitoral.
Esse risco acabou se materializando. Mas este não é o momento de comemorar acertos. É o momento de entender o novo cenário e, principalmente, preservar patrimônio.
O que muda agora nas carteiras
Nossa visão para os próximos meses é bastante simples. Este não é um momento para buscar grandes oportunidades. É um momento para não perder dinheiro.
Por isso, a maior parte das carteiras deverá permanecer concentrada em investimentos próximos ao CDI, com liquidez e baixo risco. O CDI voltou a ser extremamente competitivo e, diante do nível de incerteza que provavelmente teremos pela frente, não enxergamos razão para aumentar agressivamente o risco apenas tentando capturar uma eventual recuperação dos preços.
Especialmente porque o cenário internacional continua adverso. Se o mundo estivesse vivendo um período de juros baixos, abundância de capital e forte apetite por risco, talvez o mercado internacional tivesse maior tolerância com eventuais erros fiscais brasileiros. Não é o mundo que estamos vivendo; hoje acontece praticamente o contrário. O dinheiro está caro, os juros internacionais estão altos e os investidores estão muito mais exigentes.
É nesse ambiente que Lula assumirá seu quarto mandato.
O que esperar do novo governo
Lula não é um político desconhecido pelo mercado. Ele caminha para seu quarto mandato e, ao longo de sua trajetória, demonstrou características relativamente consistentes na forma de conduzir a política econômica. Porém, mesmo uma política econômica parecida com a adotada no atual governo poderá produzir resultados muito diferentes daqui para frente.
O ambiente econômico global está mudando, mas nossa principal preocupação está no próprio Brasil. Os componentes da dívida pública brasileira estão se aproximando de patamares que começam a exigir muita atenção: o nível atual da dívida e, principalmente, o quanto o país paga e compromete de seu orçamento apenas com juros estão caminhando para um cenário preocupante. Para piorar, temos um problema importante de rigidez das despesas. Uma parcela relevante dos gastos públicos cresce de forma praticamente automática, deixando pouco espaço para ajustes.
Nossa preocupação fiscal, portanto, está extremamente elevada. Mas, neste primeiro momento, também não acreditamos necessariamente no pior cenário.
Costumamos dizer que o político pode caminhar até a beira do precipício, mas normalmente tenta evitar o salto. E o próprio comportamento dos mercados pode funcionar como um limitador. Uma alta muito forte do dólar, juros maiores nos títulos públicos e uma queda relevante dos ativos trazem consequências econômicas concretas: o custo de financiamento do governo aumenta, a dívida pública fica mais pesada, a inflação pode voltar a pressionar e as empresas passam a enfrentar condições financeiras mais difíceis. Tudo isso cria pressão política.
Lula também demonstrou historicamente um pragmatismo muito maior do que vimos, por exemplo, no governo Dilma. Por isso, dependendo da intensidade da reação dos mercados nas próximas semanas, existe uma possibilidade razoável de vermos sinalizações mais favoráveis na escolha da equipe econômica e no discurso fiscal. Não esperamos necessariamente uma grande mudança de direção, mas alguma sinalização capaz de reduzir o nível de preocupação do mercado pode acontecer.
A grande dúvida será a credibilidade
A escolha do Ministério da Fazenda será um dos primeiros sinais importantes. Mais relevante ainda será entender se essa equipe terá autonomia para conduzir a política fiscal e se as metas anunciadas serão efetivamente cumpridas.
O Brasil já viveu situações em que havia um Ministério da Fazenda apresentando metas e buscando maior disciplina enquanto, na prática, as despesas continuavam avançando e a dívida seguia crescendo. Por isso, não basta escolher bons nomes. Será necessário observar a capacidade real de execução.
Hoje, nossa expectativa está provavelmente no meio dos dois extremos. Não acreditamos que o próximo governo será necessariamente tão ruim quanto parte do mercado pode começar a precificar nos momentos de maior estresse. Mas também não acreditamos em uma mudança fiscal profunda apenas pelo pragmatismo político de Lula. Provavelmente veremos algo entre esses dois cenários.
O problema é que esse meio-termo pode não ser suficiente caso o ambiente internacional continue piorando.
O exterior continua sendo o maior limitador
Mesmo que o governo faça alguns movimentos para acalmar o mercado, o Brasil continuará inserido em um ambiente internacional extremamente difícil. Os juros de longo prazo nos Estados Unidos e em outras grandes economias continuam muito elevados. Isso aumenta a remuneração exigida dos países emergentes e diminui a tolerância dos investidores com problemas fiscais. Ou seja, aquilo que, em outro ambiente, poderia ser considerado apenas uma política fiscal ruim pode, no cenário atual, produzir uma reação muito mais intensa.
E nossa preocupação com o exterior não está diminuindo. O comportamento do petróleo e dos preços de energia voltou a ganhar importância: caso permaneçam elevados, podem novamente contaminar a inflação de maneira mais ampla e dificultar ainda mais o trabalho dos bancos centrais.
Nos Estados Unidos, isso é especialmente relevante. Com a inflação ainda resistente e uma nova pressão vinda da energia, vemos pouca razão, neste momento, para acreditar em uma mudança importante no cenário internacional de juros. Ao contrário, consideramos possível que o Federal Reserve precise voltar a elevar os juros nos próximos meses caso a inflação não apresente uma melhora consistente.
Mas nossa maior preocupação não está apenas no juro de curto prazo definido pelo Fed. Estamos muito cautelosos com qualquer exposição relevante aos títulos de prazos mais longos nos Estados Unidos e nas demais grandes economias. O motivo é que os investidores não estão discutindo apenas inflação e política monetária. A sustentabilidade das contas públicas e o tamanho das dívidas dos países desenvolvidos passaram a ocupar um espaço cada vez maior na formação dos juros de longo prazo. Quanto maior a dívida e maior a necessidade dos governos de captar dinheiro, maior tende a ser a remuneração exigida por quem aceita emprestar por dez, vinte ou trinta anos. E esse é um problema difícil de resolver.
O que temos observado na Europa reforça essa preocupação. Fazer ajustes fiscais relevantes é politicamente muito difícil, principalmente quando eles envolvem redução de despesas, aumento de impostos ou mudanças em benefícios já incorporados pela população. Na nossa visão, esse não é um problema passageiro. A discussão sobre dívida pública, déficits elevados e custo de financiamento veio para ficar nas principais economias do mundo.
Por isso, continuamos vendo com bastante receio qualquer exposição relevante à parte mais longa das curvas de juros dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos. Mesmo que a inflação eventualmente apresente alguma melhora e os bancos centrais consigam interromper novas altas, isso não significa necessariamente que os juros de longo prazo cairão de maneira relevante.
É justamente essa combinação que torna o cenário especialmente delicado para o Brasil. Se o custo do dinheiro permanece elevado no exterior, o investidor internacional passa a exigir ainda mais para assumir risco em países emergentes. E, nesse ambiente, qualquer deterioração fiscal brasileira tende a ser cobrada de maneira muito mais rápida e intensa.
Caso essa combinação continue, poderemos observar consequências mais profundas ao longo do tempo: empresas mais endividadas terão maior dificuldade para refinanciar suas dívidas, investimentos poderão ser adiados, o custo de capital continuará elevado e o próprio governo poderá enfrentar um crescimento ainda maior das despesas com juros. Esse continua sendo um dos principais riscos do nosso cenário global e um dos motivos centrais para mantermos uma postura bastante cautelosa nas carteiras.
Nossa exceção continua sendo os títulos ligados à inflação
Dentro dos ativos que carregam risco de preço, continuamos vendo algum valor nos títulos públicos ligados à inflação, as NTN-Bs. Com a forte abertura das taxas depois da eleição, esses títulos deverão voltar a oferecer remunerações reais extremamente elevadas. Isso cria uma oportunidade.
Ao mesmo tempo, para trazer um pouco mais de proteção às carteiras, mudamos nossa recomendação para o dólar de neutra para neutra com viés positivo.
Mas é importante dimensionar corretamente essas posições. Não estamos recomendando uma grande exposição: para a maior parte dos clientes, nossa intenção é manter apenas uma parcela pequena nessa direção. Em alguns casos, inclusive, poderemos reduzir posições já existentes, principalmente em clientes que eventualmente tenham aumentado a exposição ao risco durante o período de maior otimismo entre os dois turnos.
Ainda assim, entre os ativos de maior risco de mercado, as NTN-Bs continuam sendo o segmento em que mantemos uma visão neutra com algum viés positivo. O motivo é simples: caso o mercado pressione suficientemente o governo e surjam sinais mínimos de melhora fiscal, parte dessas taxas pode recuar e os títulos podem se valorizar. Além disso, mesmo sem uma grande melhora, o investidor passa a carregar uma remuneração real muito elevada ao longo do tempo.
O momento é de cautela
Nossa mensagem para os próximos meses é clara. Não é hora de tentar recuperar rapidamente aquilo que caiu. Não é hora de aumentar risco porque os preços parecem baratos. E não é hora de transformar volatilidade em oportunidade apenas porque os ativos se movimentaram muito.
Primeiro precisamos entender qual será o novo equilíbrio político, fiscal e econômico. Enquanto isso, acreditamos que o melhor caminho é manter as carteiras conservadoras, próximas ao CDI, preservar liquidez e carregar apenas pequenas posições onde a relação entre risco e retorno ainda nos parece interessante. Em alguns casos, também faz sentido manter uma pequena proteção em dólar.
Hoje, nossa prioridade é preservar patrimônio. As oportunidades voltarão a aparecer. E queremos estar com capital e tranquilidade disponíveis quando elas realmente surgirem.
Alocação
Nossa visão para cada classe de ativos
Bolsa Brasil
Visão: Neutra com viés negativo
Nossa visão para as grandes empresas brasileiras é neutra com viés negativo. Hoje temos dificuldade de enxergar quais seriam os principais motores para uma valorização consistente da bolsa brasileira nos próximos meses.
O primeiro problema é o custo de oportunidade. O investidor consegue receber uma remuneração muito elevada no CDI e em títulos públicos com risco significativamente menor. Para abrir mão dessa rentabilidade e assumir o risco de uma empresa, o potencial de retorno das ações precisa ser bastante superior. Neste momento, não enxergamos essa diferença de forma clara.
Além disso, nossa expectativa é de juros elevados por mais tempo. Isso afeta as empresas tanto pelo aumento do custo de financiamento quanto pela redução do valor que o mercado está disposto a pagar pelos lucros futuros.
O cenário externo também não ajuda. Com juros elevados nas economias desenvolvidas e menor disposição para assumir risco em mercados emergentes, dificilmente podemos contar com um fluxo internacional muito forte sustentando a bolsa brasileira. A questão fiscal adiciona outra camada de preocupação: a necessidade de equilibrar as contas públicas pode aumentar o risco de mudanças tributárias ou novas medidas de arrecadação, criando incerteza adicional para empresas e investidores.
Isso não significa que não existam boas empresas ou preços interessantes. O problema é que enxergamos poucos catalisadores capazes de mudar significativamente essa percepção no curto prazo. Por isso, nossa visão permanece neutra com viés negativo, com preferência por empresas pouco endividadas, forte geração de caixa, boa capacidade de atravessar juros elevados e menor dependência do crescimento doméstico.
Bolsa Global
Visão: Neutra
Nossa visão para a bolsa global permanece neutra. O ciclo de investimentos em Inteligência Artificial continua sustentando crescimento e expectativas elevadas para algumas das maiores empresas americanas, mas os preços já incorporam uma parcela importante desse otimismo.
Nossa preocupação está principalmente na necessidade de esses investimentos cada vez maiores se transformarem efetivamente em lucros e geração de caixa. Ao mesmo tempo, juros elevados aumentam o custo de oportunidade de permanecer em bolsa.
Dólar
Visão: Neutra com viés positivo
Nossa visão para o dólar frente ao real passou para neutra com viés positivo. A mudança vem principalmente da combinação entre um cenário doméstico mais incerto e um ambiente internacional que continua oferecendo bastante sustentação para a moeda americana.
No Brasil, aumentaram as dúvidas sobre a capacidade de estabilizar a dívida pública e controlar as contas fiscais. Ao mesmo tempo, a pressão sobre o câmbio pode alimentar a inflação e obrigar o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo.
Normalmente, juros brasileiros altos ajudam o real, pois aumentam a remuneração oferecida ao investidor estrangeiro. Mas existe uma diferença importante quando esses juros elevados vêm acompanhados de deterioração fiscal: nesse caso, parte do aumento da remuneração simplesmente representa uma compensação pelo risco adicional que o investidor está assumindo. Ou seja, juros mais altos não significam necessariamente um real mais forte.
O exterior também oferece suporte ao dólar. Os juros americanos continuam elevados, existe risco de inflação persistente e nossa preocupação com os juros de longo prazo das grandes economias aumentou. Isso torna os títulos em dólar mais competitivos. Se o investidor consegue receber uma remuneração elevada em uma moeda considerada mais segura, precisa enxergar uma oportunidade muito atrativa para aumentar sua exposição a mercados emergentes. Esse cenário dificulta a entrada de capital no Brasil justamente em um momento em que a percepção fiscal doméstica piorou.
Também enxergamos o dólar como uma proteção importante para as carteiras. Se houver uma deterioração adicional do cenário brasileiro, uma saída de capital de mercados emergentes ou uma piora global da aversão a risco, a moeda americana tende a funcionar como um amortecedor para outras perdas da carteira.
Isso não significa que esperamos uma alta contínua do dólar. Uma equipe econômica bem recebida, sinalizações fiscais melhores ou uma mudança importante no cenário externo podem provocar movimentos relevantes de valorização do real. Por isso, não temos uma visão fortemente positiva. Nossa leitura é neutra com viés positivo. Entendemos apenas que, hoje, os riscos estão mais inclinados para uma moeda americana mais forte e que uma pequena exposição ao dólar ganhou importância como instrumento de proteção das carteiras.
CDI Governo
Visão: Positiva
Essa é uma das classes de que mais gostamos atualmente. Nossa expectativa é de juros permanecendo elevados por mais tempo. A piora da percepção fiscal, a pressão sobre o dólar e o risco de inflação mais resistente tornam provável uma interrupção do ciclo de cortes da Selic e podem, em um cenário mais adverso, voltar a colocar em discussão novas altas de juros. Isso favorece diretamente o pós-fixado.
O CDI oferece hoje uma combinação muito forte entre rentabilidade, liquidez, baixa volatilidade e baixo risco de crédito. Além disso, representa um custo de oportunidade elevado para todas as demais classes: para assumirmos mais risco, precisamos encontrar uma oportunidade que realmente justifique abrir mão dessa remuneração. Neste momento, enxergamos poucas.
Renda fixa: Pré-fixado Longo Brasil
Visão: Neutra
Essa é uma das classes em que mais preferimos ter cautela. O principal problema é que, quando surgem dúvidas relevantes sobre a situação fiscal de um país, torna-se extremamente difícil saber qual é o nível correto dos juros longos.
Uma taxa pode parecer muito alta olhando para o histórico recente e, ainda assim, continuar subindo. Pode chegar a 17%, 20%, 25% ou outro nível. Não estamos afirmando que chegará a esses números; o ponto é justamente que ninguém sabe com precisão onde estará o equilíbrio se a confiança fiscal continuar se deteriorando. E isso torna muito perigoso assumir uma posição simplesmente porque a taxa parece alta. Quanto mais longo o título, maior a perda de preço caso o mercado passe a exigir uma remuneração ainda maior.
Existe ainda a questão da política monetária. Até pouco tempo atrás, o debate era quantos cortes adicionais de juros o Brasil teria. Hoje, com piora fiscal, dólar pressionado e maior risco de inflação, podemos rapidamente passar para uma discussão sobre interrupção dos cortes e, mais à frente, até uma eventual volta das altas da Selic.
Por fim, existe o cenário externo. Os juros longos das economias desenvolvidas permanecem elevados e nossa preocupação fiscal com esses países continua muito grande. Se um investidor consegue receber uma remuneração elevada emprestando dinheiro para os Estados Unidos ou outras economias maduras, naturalmente exigirá ainda mais para financiar o Brasil.
Temos, portanto, três riscos simultâneos: fiscal brasileiro, política monetária local e juros longos globais. Por isso, preferimos não tentar acertar onde está o topo das taxas. Existem níveis que começam a parecer interessantes, mas o risco de uma nova abertura ainda é relevante. Nossa visão permanece neutra e preferimos esperar maior clareza antes de assumir posições importantes em prefixados longos.
Renda fixa: Pré-fixado Curto Brasil
Visão: Neutra
O cenário mudou. O debate deixou de ser sobre quantos cortes adicionais o Banco Central conseguiria realizar. Com a piora fiscal, a pressão cambial e o risco inflacionário, pode passar a ser sobre quando os cortes serão interrompidos e, em um cenário mais adverso, se novas altas poderão voltar à discussão.
Além disso, muitos investidores montaram posições apostando na queda dos juros. Caso essas posições precisem ser desmontadas, as vendas podem pressionar ainda mais os preços dos prefixados. Preferimos não ficar na frente desse possível movimento.
Renda fixa: Inflação Longa
Visão: Neutra com viés positivo
Essa é uma das classes mais delicadas da nossa análise atual. De um lado, as taxas reais atingiram níveis extremamente elevados. Na nossa visão, isso significa que uma parcela importante da deterioração fiscal e do aumento do risco já está incorporada aos preços. Para quem consegue carregar os títulos por bastante tempo, contratar uma remuneração real tão elevada é algo bastante interessante.
Além disso, existe a proteção inflacionária. Caso a combinação entre piora fiscal, dólar mais alto e commodities pressione a inflação nos próximos anos, a correção pelo IPCA trabalha a favor do investidor.
O problema é que os títulos longos possuem uma sensibilidade muito grande às mudanças nas taxas. Mesmo com uma remuneração de IPCA mais uma taxa real muito elevada, é possível sofrer perdas relevantes caso o mercado passe a exigir taxas ainda maiores. E esse risco existe: quando há dúvidas sobre a trajetória fiscal, é muito difícil determinar onde está exatamente o ponto máximo dos juros longos. As taxas podem continuar subindo antes de encontrar equilíbrio.
Existe também um componente técnico. Durante o período de maior otimismo com o Brasil, muitos investidores aumentaram posições apostando em queda dos juros. Agora, parte dessas posições pode precisar ser reduzida, pressionando ainda mais os preços no curto prazo.
Por outro lado, quanto mais as taxas sobem, mais interessante fica o retorno contratado e maior a parcela do risco já incorporada ao preço. Além disso, uma pressão excessiva dos juros sobre a dívida pública pode acabar forçando o próprio governo a oferecer sinalizações fiscais mais responsáveis. Se isso acontecer, mesmo que parcialmente, os juros longos podem recuar. E, nos títulos longos, uma queda relativamente pequena das taxas pode produzir uma valorização importante.
Por isso, seguimos neutros com viés positivo, mas sem recomendar uma grande posição. Gostamos das taxas. Não necessariamente acreditamos que já encontramos o ponto máximo delas.
Renda fixa: Inflação Curta
Visão: Neutra com viés positivo
Gostamos dos títulos de inflação mais curtos principalmente porque as taxas reais já estão em níveis muito elevados. Na nossa visão, uma parcela importante dos riscos fiscais e inflacionários já está incorporada nessas taxas.
Existe ainda uma característica especialmente interessante: uma piora fiscal pode pressionar os juros reais e prejudicar o preço dos títulos, mas, se essa deterioração vier acompanhada por inflação maior, o próprio IPCA passa a trabalhar a favor do investidor. Nos vencimentos curtos, essa combinação é mais confortável porque a sensibilidade às oscilações de juros é muito menor do que nos vencimentos longos. Por isso, enxergamos valor em manter uma exposição moderada.
Juros Global Longo
Visão: Neutra com viés negativo
Esse é um dos pontos que mais nos preocupam no cenário internacional. Durante muitos anos, as grandes economias conseguiram acumular dívidas elevadas porque o custo para financiá-las era extremamente baixo. Esse mundo mudou. Hoje, Estados Unidos, Europa, Japão e outras economias maduras convivem com dívidas muito maiores e precisam refinanciá-las pagando taxas muito mais elevadas.
Quanto maior a dívida, maior a quantidade de novos títulos que os governos precisam emitir. E quanto maior a necessidade de financiamento, maior tende a ser a remuneração exigida pelo investidor para emprestar dinheiro por dez, vinte ou trinta anos.
O grande problema é que fazer um ajuste fiscal relevante é politicamente muito difícil, e a Europa oferece bons exemplos dessa dificuldade. Reduzir déficit normalmente exige cortar despesas, alterar benefícios, realizar reformas ou aumentar impostos; em economias maduras, grande parte dessas despesas já está profundamente incorporada à sociedade. Isso significa que ajustes tendem a acontecer lentamente, de forma incompleta ou simplesmente serem adiados. Os Estados Unidos também precisam financiar volumes muito elevados de dívida, ao mesmo tempo em que inflação e energia continuam exigindo atenção.
Por isso, mesmo que os bancos centrais parem de elevar os juros de curto prazo, não acreditamos que isso seja suficiente para garantir uma queda relevante dos juros longos. São duas discussões diferentes: os juros de curto prazo dependem principalmente dos bancos centrais; os juros de dez, vinte ou trinta anos dependem também de inflação esperada, trajetória fiscal, quantidade de dívida emitida e remuneração exigida pelo investidor para assumir aquele risco durante décadas.
Esse problema não parece passageiro. Na nossa visão, dívida pública, déficits e dificuldade de ajuste fiscal serão temas centrais para as grandes economias durante muitos anos. Por isso, temos bastante cautela com títulos globais longos: pequenas altas nas taxas podem gerar perdas relevantes de preço. Preferimos prazos menores enquanto não enxergarmos sinais mais consistentes de melhora fiscal e estabilização das dívidas.
Fundos Imobiliários de Crédito
Visão: Neutra com viés negativo
Nossa preocupação aumentou principalmente em relação ao risco de crédito. Muitos desses fundos carregam CRIs de empresas e projetos que passaram anos convivendo com juros muito elevados. Se esse cenário persistir, alguns devedores podem começar a enfrentar maior dificuldade de refinanciamento.
O fato de muitos CRIs estarem indexados ao CDI ou ao IPCA ajuda o rendimento do fundo, mas também aumenta o custo financeiro de quem precisa pagar aquela dívida. Por isso, um dividend yield alto precisa ser analisado com muito cuidado. Preferimos fundos com bons devedores, garantias sólidas, baixa concentração e estruturas de crédito mais conservadoras.
Fundos Imobiliários Mistos
Visão: Neutra
Os FIIs mistos combinam imóveis e crédito, e os dois componentes enfrentam desafios no cenário atual. Juros elevados aumentam o custo de oportunidade dos imóveis e dificultam a valorização das cotas. Ao mesmo tempo, na parcela de crédito, juros maiores melhoram parte do carrego, mas aumentam o risco financeiro dos devedores.
Alguns fundos já negociam com descontos importantes e continuam apresentando bons ativos. Por isso, permanecemos neutros e bastante seletivos.
Fundos Imobiliários de Tijolo
Visão: Neutra
Os juros elevados reduzem a atratividade relativa dos fundos imobiliários de tijolo e dificultam a valorização das cotas. Também podem pressionar atividade econômica, ocupação, renegociações de aluguel e capacidade financeira dos inquilinos.
Por outro lado, fundos com bons imóveis, localizações fortes, baixa vacância e contratos sólidos continuam podendo atravessar esse ambiente de maneira relativamente defensiva. Por isso, mantemos uma visão neutra.
Commodities
Visão: Neutra com viés positivo
Nossa visão permanece neutra com viés positivo, principalmente por causa do ouro. A deterioração fiscal das grandes economias, dívidas elevadas, riscos inflacionários e tensões geopolíticas continuam criando demanda por ativos que não dependem diretamente da capacidade de pagamento de governos. A compra de ouro por bancos centrais também continua sendo um fator estrutural favorável.
Ao mesmo tempo, juros americanos elevados representam um risco para a classe, já que o ouro não paga juros. Por isso, gostamos da exposição como proteção e diversificação, mas sem aumentar excessivamente a posição.
Philippe Drevon
Sócio-fundador da Duop
Engenheiro e mestre em Economia
Gustavo S. de S. Teixeira, CFA
Sócio-fundador da Duop
Engenheiro
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